
O início da série “Clube” aconteceu em 2020, quando Maxwell passou a frequentar o "Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea, bairro nobre do Rio de Janeiro vizinho à Rocinha, favela onde o artista nasceu e cresceu. Foi nos pátios do clube que Maxwell voltou sua observação aos corpos brancos, e os elegeu como tema central de sua pintura, o que culmina na elaboração do conceito de “figuração branca”, que marca esta nova exposição.
Os altos muros do clube criam um “oásis” para seus membros e frequentadores — aparentemente apartados das contradições e complexidades que os circundam – ao mesmo tempo que explicitam e representam as estruturas de poder em cenas pacíficas de banhos de sol e brincadeiras em piscinas.
Embora Maxwell chame seus personagens brancos de "banhistas da Gávea", o Clube do Flamengo torna-se metáfora para abordar todos os espaços “de bem-estar, lazer, fartura, segurança, tranquilidade, boa arquitetura, bom design, boa arte, boa comida”,como ele escreve.
“Ninguém chama a representação do homem branco de figuração branca. Todo mundo conhece a representação do homem branco, em pintura, apenas como figuração. O gênero mais exaurido e canonizado da história da arte é neutro, ainda não recebeu uma classificação. Uma vez que a representação do homem branco foi entendida como o avatar da humanidade, ela não poderia ter sido classificada e racializada.”
– Maxwell Alexandre
O gênero “figuração branca” surge como uma operação conceitual na pintura de Maxwell para tornar visível a branquitude no campo da arte e como destaca o artista: “Se existe figuração preta, há de haver uma figuração branca.”.
Maxwell conquistou reconhecimento internacional com as séries “Pardo é Papel” e “Novo Poder”, nas quais retratava, respectivamente, cenas cotidianas da favela e pessoas pretas em espaços como museus e galerias de arte. Com a série “Clube”, Maxwell Alexandre muda radicalmente o tema de suas pinturas, que agora deslocam os corpos brancos de um local de neutralidade, pondo em questão uma relação de séculos da história da arte entre o “pintor preto” e o objeto da pintura, a “figuração branca”.
A série “Clube” desnaturaliza a representação do homem branco na pintura ao nomear o gênero como "figuração branca”. E é através da suposta neutralidade do “Cubo Branco” que Maxwell nos aponta determinados valores centrais estabelecidos dentro do sistema das artes. Segundo ele, a “figuração branca” que faz não é neutra, tem a intenção de racializar o corpo branco.
Desde o início da série Clube, é possível verificar os esforços do artista em inventar um novo gênero. Esse desejo é evidenciado em seu discurso ao usar reiteradamente a expressão “figuração branca como afirmação”. A ideia de “afirmação”, dentro do léxico da série Clube, portanto, se desdobra em dois conceitos: “intenção” e “aparência".
A “aparência” é como se percebe, pela visualidade, a raça da figura pintada. Para isso Maxwell Alexandre designou 4 determinações preliminares para que o “pintor preto” possa fazer a “figuração branca como afirmação”.
1. O “pintor preto” deve pintar a “figuração branca” sempre o mais branco possível. Brancura é uma evidência fundamental para a visualidade da raça na “figuração branca”.
2. O “pintor preto” deve evitar pintar o homem branco na sombra, se o fizer, precisa se certificar de iluminar o máximo as partes de seu corpo para que sua pele branca se revele, sem que haja dúvidas de que se trate de uma pessoa branca.
3. O “pintor preto” não deve brincar com os fenótipos. Sabemos que existem pessoas brancas com nariz largo e cabelos cacheados, mas o “pintor preto” deve evitar essas características na representação do homem branco. O “pintor preto” deve optar por retratar suas figuras brancas com narizes finos, alongados, cabelos lisos e penteados para trás.
4. Se o “pintor preto” ao pintar o homem branco, ainda tiver dúvida de sua racialidade, o “pintor preto” deve usar o recurso do olho azul. Uma figura de olhos azuis, muito provavelmente resolverá a distinção da raça branca.
Sobre o conceito de “intenção", Maxwell declara que “não é possível identificar a “figuração branca como afirmação” se ela não tem esse propósito. Quer dizer, a figuração deve ser nomeada como “figuração branca”.
A maior vontade de “intenção” na série Clube é, portanto, a classificação da “figuração branca”. É na série Clube que a representação do homem branco, que manteve sua neutralidade ao longo de toda a história da arte, passa a ser nomeada.
Para a produção da “figuração branca como afirmação” você precisa tanto da“aparência” bem resolvida, quanto da “intenção” evidenciada. Trata-se então de uma sistematização deliberada da “figuração branca” na obra do “pintor preto”, onde a “figuração branca” não é pontual, nem espontânea, nem paisagem. Ela é a afirmação totalitária, o tema central”, encerra o artista.